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Areia nos olhos – Manifestações de Março de 2015

  1. Introdução:

Não existem fatos, só interpretações: essa frase sugerida por F. Nietzsche em algum dos seus escritos é muito pertinente para as manifestações de março de 2015, principalmente a de domingo (15). Múltiplas leituras foram feitas por analistas e especialistas de várias áreas do conhecimento. Interpretações de direita, de esquerda, dos independentes, filósofos, psicanalistas, economistas, sociólogos, militantes e não militantes. A impressão que essas narrativas produzem no leitor é que cada um viu o que queria ou o que podia ver. Não existem fatos, só interpretações e então vamos a elas. Passarei muito rapidamente pelos afetos da direita e da esquerda — que geram interpretações sobejamente conhecidas pelo público — e vou ater-me às narrativas menos conhecidas, mais ousadas e, sobretudo, menos viciadas.

Venho tentando compreender, desde 2013, mas, principalmente, na campanha eleitoral e agora nessas manifestações do início de 2015 o ódio, ódio comentado por vários analistas e a ele me aterei. Li bastante sobre o ódio individual e coletivo que cá e lá vemos explodir na política e nas manifestações e nada do que foi escrito me soou suficiente. É preciso aprofundar o debate sobre esse ódio virgem, ódio selvagem que estamos vendo explodir pelo tecido social. Nesta Introdução já sinalizo que esse ódio selvagem não ainda psiquisado, institucionalizado, sublimado, talvez sirva a outros propósitos se tivermos presente o velho ódio conhecido por todos nós, um ódio organizado, institucionalizado, quer nos indivíduos, quer no coletivo.

Finalmente será também objeto da nossa atenção o é proibido pensar; é inacreditável a ausência de pensamento inscrito nas práticas coletivas – e também na grande parte dos ¨especialistas¨ que comentaram as manifestações de março de 2015. Em parte, o velho ódio, organizado em identificações projetivas e o ódio selvagem nos impedem de pensar, proíbem o pensamento e, de uma maneira extravagante, convidam-nos, a todos, à psicose coletiva. Mas não atribuo só ao ódio a proibição de pensar. A surdez e a não-representação de certas pautas impedem também o pensamento já que são ameaçadoras, perturbadoras e “estão lá” ainda que negadas silenciosamente. Refiro-me à catástrofe planetária que nos ameaça silenciosamente sem que possamos representá-la, trazê-la para a discussão, para a agenda política. Tanto a universidade, como a mídia, como a política — e, curiosamente, também entre os analistas, especialistas de todos os matizes, sejam eles filósofos, sociólogos, economistas, políticos — não proferiram e não proferem uma única palavra sobre a ameaça que nos ronda e é desse silêncio, dessa negação que a palavra de ordem emerge: é proibido pensar!

  1. Múltiplas narrativas, múltiplas interpretações.

Voltando para casa na semana passada conversava com o motorista de táxi sobre o carnaval na Vila Madalena e a “queda” do subprefeito e ele, o motorista, sem que houvesse contexto me disse: “Vão cair todos. Eu odeio a Dilma e o PT. Sinto muito ódio deles”. Disse-lhe que eu votei na Dilma não por que tenha confiança no governo e no PT; ao contrário, “votei nela por que não queria votar no Aécio e na direita”. Minha amiga que até então não se manifestara me disse “o que é isso Amnéris? Não existe mais direita. O Aécio é neto de Tancredo Neves”. Minha outra amiga também presente — estávamos em três — me disse “eu também fui à manifestação no domingo e lá as pessoas mostravam indignação e eram todos trabalhadores da classe média e classe média alta”.

Pensei com os meus botões: “mas não chamávamos esse último segmento da população de elite? ”. Direita? Elite branca conservadora? São conceitos que não existem mais para essas pessoas que, tirando o motorista de táxi, são intelectuais das melhores universidades deste país!

Que diabos está acontecendo? Quem insiste na divisão, na criação do “nós contra eles”: é a turma do PT — me sugeriram. Como já disse acima não me encaixo na “turma do PT” e ainda assim sei ler com clareza as diferenças de classe, a multiplicidade dos movimentos sociais, o pluralismo e, claro, o conflito. Enxergo o que está acontecendo e não admitirei que joguem areia nos meus olhos. O que os adeptos da “união nacional” — e claro familiar pretendem?

Essa conversa sem maiores consequências (a não ser a carga de ódio que recebi dessas três pessoas que me jogaram nos “nós contra eles” e, para dizer a verdade isso não me ofende, pois, o conflito há de ser bem-vindo) trouxe-me reflexões: a primeira é que, de fato, Nietzsche tem toda razão: “não existem fatos, só interpretações”.

Lendo as revistas semanais e os jornais diários — Época, Veja, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo — pude observar que, para a mídia conservadora, a manifestação do dia 15/3, foi vista como uma “grande festa familiar”. O comentador da revista Veja, Gustavo Ioschpe[1], a meu ver, foi contundente nessa direção: ódio, recalque, ressentimento? Na sua compreensão, não é nada disso, mas uma passeata “feliz, festiva”, “catalizadora do maior movimento de união nacional desde as Diretas Já”. Não resisto e então cito um trecho do articulista: “…os manifestantes da sexta-feira, naquele esquizofrênico ‘protesto a favor’, vestiam vermelho e bradavam palavras de ordem. No domingo, a massa vestia verde e amarelo, empunhava o pavilhão da pátria e a música mais repetida era o Hino Nacional […] Não foi por acaso que levei meus filhos”… Nesse domingo histórico “o sentimento não foi de ódio, mas de plenitude e de realização. Queremos unir esforços. Queremos um país grande, pujante, melhor. Para todos” e por isso não podemos ‘apostar no trololó da defesa dos oprimidos contra os interesses da elite para se manter no poder’.

Eis como o comentador de forma muito doce elimina as classes sociais, a política, as diferenças — todas elas — a pluralidade, o conflito! Cheio de esperanças nesse movimento familiar e de unidade nacional e citando Walt Whitman — “Eu sou vasto, há multidões em mim” — ele, o articulista, diz: “Eu estou na multidão, e a multidão está em mim”. É um Sujeito Multidão, na infeliz expressão de outro comentador que discutiremos abaixo.

Na minha compreensão, esse clima afetivo trazido à tona pelos setores conservadores é muito mais tangível para mostrar o que está acontecendo do que todos os discursos racionais e críticos que eu pudesse trazer à tona nesta postagem.

Comento agora duas surpresas no noticiário: a primeira[2], é do sociólogo José de Souza Martins da USP, o melhor professor de sociologia que a minha geração teve. Martins se apresentava naquelas aulas magistrais como “tendo sido operário durante anos”, antes de enveredar na vida acadêmica. Não sei como os meus colegas ouviam essa apresentação, para mim, ela gerava confiança: alguém que começa tão lá embaixo e se torna um intelectual do calibre dele é motivo de júbilo. Sorvíamos as palavras de Martins com deleite dado o seu brilho, sensibilidade e inteligência para discutir as questões sociais brasileiras e por isso, li e reli o seu comentário, no jornal Estado de São Paulo, 21/3/2015, com surpresa, muita surpresa.

Sujeito Multidão foi o nome dado ao comentário de Souza Martins e, nele, o sociólogo mostra como se deu em torno das manifestações um fervilhar de interpretações. Quero dizer em torno da manifestação de domingo, dia 15 — e não em torno da manifestação de sexta-feira, dia 13, convocada pelas corporações sindicais, de filiação ideológica e partidária explícita. O interesse de Martins então se volta para a manifestação do domingo, que traz uma novidade: uma “manifestação política de famílias”. “O conflito [que alívio ele ainda existe! ] se expressou na guerra dos conceitos. Sobretudo no método de elaboração dos conceitos que procuram dar sentido ao embate entre os que estão do lado do governo e os que estão do ‘outro lado’”. Quem eram os manifestantes? — é aí para o emérito professor que o conflito conceitual se situa.

Na compreensão do sociólogo o Sujeito é a Multidão! — tão bem expresso anteriormente por Gustavo Ioschpe, na Revista Veja. E multidão é multidão, sua identidade é temporária e provisória “que esgota sua significação e sua função na fração de tempo em que se manifesta nas ruas e no modo como se expressa”. Será? Multidão é o novo sujeito da sociedade brasileira? “Novo sujeito do processo político em conflito com os velhos sujeitos, os da política como ação de estereótipos, os do cidadão aprisionado na camisa de força de conceitos rígidos forjados ainda na cultura de luta de classes”.

Agora compreendo melhor, o conflito para ele é só conceitual mesmo: os “intérpretes para lá de líquidos” e os “cidadãos aprisionados nos conceitos rígidos”. Classes, luta de classes tudo isso pertence ao passado. Pior do que isso ensina o professor: esse dualismo de facções antagônicas pertence à “tendência antirrepublicana inaugurada em 2003… como ideologia dos pobres contra os ricos, dos negros contra os brancos, das elites contra o povo”.

Meias verdades de um pensamento fundado no “senso comum pseudo-sociológico”… E eu que pensava que a luta de classes surgira nos séculos anteriores e fora elaborada por um cidadão chamado Karl Marx, aliás, foi isso que o professor ensinou para a minha geração! É incrível o nojo que a sociologia teve e tem do senso comum! Dualismo interpretativo? “mera e retrógrada ficção”, o professor decreta sempre abraçado à ciência contra o senso comum. Eis que fomos contemplados — segundo o sociólogo — na manifestação de domingo por uma “lucidez desalienadora”!

Compreendi, após ler o artigo do Martins, por que as minhas amigas sociólogas reagiram no táxi como reagiram — elite? Nem pensar todos trabalhadores. Direita? Nem pensar: Aécio é neto de Tancredo Neves — é a sociologia líquida — que não tem nada a ver com Z. Baumann e sua capacidade criativa de ler o social — invadindo as mentes, sempre contra o senso comum.

Eu reneguei a minha formação de socióloga e abraço o senso comum, infinitamente mais sábio que a sociologia líquida envergonhada de ser de direita, e continuo pensando que há sim ricos e pobres, há luta de classes, há negros esmagados pelo preconceito dos brancos. Estou de mãos dadas, como antropóloga, com o senso comum — e, para quem não sabe, explico: a antropologia sempre respeitou o senso comum e nunca se arvorou a uma posição científica positivista como a sociologia em pleno século XXI ainda ousa fazer.

A segunda surpresa veio da “pena digital” do comentador e psicanalista Contardo Calligaris. Gosto muito das intervenções do Contardo, ele faz observações argutas e inteligentes. Não foi isso que aconteceu com Manifestações, publicado na Folha de São Paulo, em 19/03/2015. Nela, o psicanalista também se derreteu com a festa familiar, com o ar relaxado das pessoas que usavam sandálias havaianas por que sabiam que a manifestação seria pacífica. Esse detalhe observado por Contardo causou suspiros na comunidade psi digital: não foram raros os que se sensibilizaram “só um psicanalista poderia ter se atido a esse detalhe”.

Eu não fiquei feliz com o detalhe observado pelo psicanalista e esperava algum pensamento dele que valesse à pena. Contardo, além disso, mostrou-se muito feliz no artigo porque não escutou nenhum xingamento dirigido à Dilma, ao contrário do que acontecera com o panelaço do dia 8/3, quando a tônica era xingar Dilma de puta e de vaca. Contardo não escutou nenhum ‘filha da puta’ e ele regozijava-se no artigo com isso. Fui obrigada a passar-lhe um e-mail encaminhando a reportagem da TV Folha –http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/2015/03/1603513-em-ato-contra-governo-manifestantes-divergem-sobre-impeachment-veja.shtml– O vídeo é muito elucidativo e sugiro que o leitor se atenha a ele por um momento. Vejam também o vídeo da Revista Trip https://www.facebook.com/video.php?v=10152760919021238&pnref=story e me digam como assistimos a uma manifestação dessas reivindicando a volta do regime militar e não fazemos nada, permanecemos inertes ouvindo a sociologia líquida e a psicanálise líquida e a incrível “festa familiar”. Reunião de conservadores e absoluta ausência de pensamento político: undo.com.br/politica/caio-castor-protesto-contra-dilma-na-paulista-foi-muito-alem-da-classe-media.html Acompanhem a manifestação de ódio que passou despercebida aos comentadores: https://www.facebook.com/video.php?v=295617783895439&pnref=story .

Presente na manifestação do domingo como observadora devo dizer ao leitor que estive na passeata que a TV Folha retrata e também a da Revista Trip — e não naquela que Contardo Calligaris esteve e então haja filhas da puta! O leitor também foi à manifestação no domingo? Como observador ou como manifestante? Se foi, em qual das manifestações esteve? Naquela que eu fui, ou na do Contardo Calligaris? Talvez na de José de Souza Martins? Ou na de Gustavo Ioschpe?

As intervenções políticas mais ousadas e interessantes que tive a oportunidade de ler e de compartilhar vieram de André Singer, Frei Beto, Marcos Nobre, Eliane Brum e de Vladimir Safatle: na política eles não se deixam cegar pela areia que insistentemente estão jogando nos nossos olhos. Comento as apreciações do filósofo V. Safatle[3]: para ele, os protestos do dia 13, pela defesa do governo democraticamente eleito, e do dia 15, protestos contra a corrupção e o governo Dilma estão longe de mostrar a gravidade do que temos pela frente. A Nova República acabou: é essa a nossa questão. E trocar o PT pelo PMDB não é uma alternativa. “Entre 1945 e 1964 havia um processo em massa, apesar dos conflitos brutais e tentativas de golpe. Havia a expectativa de uma tomada democrática do poder, de uma implementação de reformas. Havia um projeto que pensava o futuro. De 1985 para cá, houve algo parecido, em dois projetos de modernização nacional. O problema é que esses dois projetos acabaram[…] Neste contexto, a situação atual brasileira é de fato a pior possível”.

Vale dizer, as manifestações populares são sinal de esgotamento nunca antes visto do modelo político — um problema que vai muito além da corrupção e da crise de representatividade. Safatle põe o dedo na ferida: “O governo já naufragou. A questão é saber se a esquerda vai naufragar junto com ele”. E, de novo, ele, ao meu ver, acerta: “O trágico é que quando uma coisa termina, ela não acaba necessariamente logo, e pode continuar como zumbi, como morto-vivo, e o país fica paralisado por muito tempo. Nada está acontecendo, apesar de todos os embates atuais. O fim do modelo é trágico, e leva consigo os atores políticos, intelectuais e formadores de opiniões”.

Para ele, o modelo esgotado é o da democracia liberal e a ideia de representação. Eis a chave da argumentação de Safatle: “só há política sob o império da representação”. “Isso é um absurdo e limita a capacidade de pensamento. A filosofia já abandonou essa questão da representação como elemento decisivo”. A alternativa para ele é uma constituinte exclusiva para a reforma política, através do aumento da participação popular, valendo-se de uma democracia digital.

Sobre o ódio, ódio virgem: fins de mundo pessoais/ fins de mundos coletivos: como atua o ódio?

Eros/o amor liga, Thanatos/o ódio desliga: definição a mais simples desse par, chamado Vida. Sempre andam juntos e, todavia, não raro as proporções entre eles se alteram: um superego primitivo é basicamente thanático; thanatos é também predominante nos mecanismos de boicote, nos refúgios psíquicos, nas compulsões. Thanatos vive de identificações projetivas, vale dizer, localiza no outro o que pertence ao eu, em geral pré-conceitos, o lado sombrio da personalidade e regozija-se por se sentir superior dando margem à emergência do narcisismo das pequenas diferenças — na clássica definição de S. Freud.

As identificações projetivas são uma das formas eficientes do ódio organizado. Thanatos está, então, organizado na personalidade e o trabalho da psicanálise é flexibilizá-lo, religá-lo quando cindido, elaborá-lo e no limite simbolizá-lo.

Não raro, porém, nas trajetórias individuais aparece um outro tipo de ódio — de thanatos: ódio virgem. Explico-me: ao longo das travessias individuais há períodos de adensamentos, outros de esvaziamento, acontecimentos inusitados e, também, “fins de mundos” pessoais, processos de morte e de renascimentos: a morte de uma atitude, de um sonho, de uma idealização, às vezes, de estruturas psíquicas, mentais, emocionais. Os ‘fins de mundos’ pessoais não são nada raros e tive o privilégio de acompanhar dezenas deles no consultório.

Quando um desses ‘fins de mundos’ se anuncia por sonhos, angústias, inquietações, noto que o ódio virgem invade a personalidade e, hoje, compreendo bem o porquê: para que haja o fim de um mundo pessoal, é preciso desalojar a personalidade das suas bases identitárias e nada melhor que o afluxo do ódio virgem para que haja esse desenraizamento. Tudo isso não tem nada a ver com o ódio organizado a que anteriormente nos referimos; o ódio virgem tem função diferente se levarmos em conta o ódio organizado: sua função é de desalojar as bases identitárias e, por suposto, esse ódio não é oriundo nem controlado pelo ego. Aliás, desse processo o ego é só um observador curioso e interessado.

Poderíamos nos valer de muitos autores para explicar os fins de mundos pessoais e porquê tal acontecimento insólito se dá. A leitura de W. R. Bion e de C. G. Jung deixa isso claro. A trajetória individual dá bons indícios do porquê, mas não nos ateremos a isso e convido o leitor a dar por certo esse acontecimento psíquico. Quem me ensinou algo sobre o ódio virgem desalojador dos nós identitários foi J. Lacan. Para ele, a pulsão de morte — thanática — pode ter como tarefa esse desenraizamento.

Nos fins de mundos pessoais que pude observar, quando o afluxo desse ódio virgem se dá — desenraizando os nós identitários — a personalidade sofre tal processo e atua — e como sabemos, o maior ‘pecado’ na psicanálise é esse mesmo: atuar. A pessoa atua seus nós identitários como se pudesse retê-los e então evitar desmanchar-se. Ou então, o auto ódio se manifesta e a pessoa adoece de múltiplas maneiras, nesse caso, também é claro o que acontece: frente ao terror, a angústia do fim de (um) mundo a pessoa se ataca, de certa maneira, quer morrer: uma maneira radical de impedir o fim do mundo que se avizinha.

A angústia frente ao nada que o fim de um mundo representa pode levar a pessoa a ‘saltar’ ao encontro da sua própria autenticidade ou pode levar — e em geral leva — a uma resistência com base em infinitas atuações e com auto ataques: maneiras inócuas de impedir aquilo que está por vir, um fim do mundo pessoal. Esse ódio virgem prepara então as condições para os fins de mundos e, para ser bem usado, exige compreensão: é um ódio que ao desligar-nos de nossos nós identitários nos ajuda a parir um novo modo de ser; sem ele, sem o ódio virgem, acredito, não haveria como sonhar com passagens.

Neste item faremos paralelos entre o indivíduo e o coletivo; como esse paralelo é problemático, já que o indivíduo e o coletivo funcionam de maneira diferentes e são objetos de disciplinas diferentes, tomo a liberdade de fazê-lo como licença poética.

Licença poética já que nunca tive a oportunidade de observar um fim de mundo coletivo, o fim de uma época histórica, o fim de uma civilização, mas tive, como já disse, a oportunidade de observar dezenas de fins de mundos pessoais. O segundo é sempre acompanhado de renascimentos, não sei se o primeiro terá essa chance. Em ambos, porém, o ódio virgem — a pulsão de morte — é convocada para desalojar as bases identitárias — individuais e coletivas.

Também no coletivo, na sociedade, na cultura o ódio está organizado e institucionalizado. Como dizem os filósofos políticos, o Estado é o detentor da violência, é dele e nele que se alojam os aparelhos de violência: a repressão, o exército, a polícia. Não raro a guerra. Um aparato sem fim do ódio organizado e, por vezes, profundamente cindido, quando o próprio Estado se torna uma ameaça para o cidadão tão bem descrito no filme Leviatã, do diretor russo Andrey Zvyagintsev — concorreu ao Oscar em 2014. Mas, definitivamente, não é o ódio organizado que será objeto da nossa discussão; antes discutiremos o ódio virgem, o ódio selvagem apresentado com maestria no filme do argentino Damián Szifron, Relatos Selvagens: o afluxo de ódio crescente que invade o coletivo e não se organiza e, por isso, um nada desencadeia uma cadeia de violência sem fim entre os cidadãos. É sobre ódio que nos cabe falar.

Esse ódio selvagem não se organiza, não se institucionaliza porque, como vimos, sua função é outra, no indivíduo mas também no coletivo, na sociedade, na cultura: desalojar os nós identitários que nos permite uma determinada imagem de nos mesmos enquanto indivíduos e enquanto grupo. Esse ódio selvagem vem se impondo sem que suscite qualquer reflexão e, todavia, ele é evidente e, na medida em que não o reconhecemos, caímos em Relatos Selvagens — se os leitores me permitem eu diria que estamos fazendo um ‘mau uso’ do ódio virgem. E, todavia, é possível percebê-lo em outras direções: é ele que está nos desenraizando, desalojando dos nossos nós identitários enquanto participantes de uma comunidade política. E isso significa para mim que estamos esgotando modelos: modelos políticos que envolvem partidos políticos   e também a prática política da representação como alerta V. Safatle.

Não temos mais utopias e também não temos mais projetos políticos que nos permitam sonhar o futuro. Isso é muito perigoso, mas também pode ser muito interessante. Estamos sendo desenraizados dos modelos teóricos e filosóficos modernos: do antropocentrismo, da ideia mesmo de humanidade, da ideia de espécies e com esses desalojamentos já não sabemos como habitar o planeta, como nos ‘valermos’ (?) dos recursos planetários — as palavras começam a faltar — e como lidar com a catástrofe que já aconteceu, como insistem Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro no livro Há mundo por vir ?[4].

Convido meus leitores a ler o livro acima, pois sua leitura é uma experiência singular: não se sai dela como se entrou e, em algum lugar do livro, o antropólogo Bruno Latour diz que o ler é como ‘tomar uma ducha fria’ e, eu insisto, precisamos dessa ducha. Recomendo também os links abaixo e neles o pensamento brota aos borbotões:

O hiperrealismo das mudanças climáticas e as várias faces do negacionismo — Déborah Danowski, Abril de 2012.

http://www.culturaebarbarie.org/sopro/outros/hiperrealismo.html#.VNDVci6GOXw

Diálogos sobre o fim do mundo

Do Antropoceno à Idade da Terra, de Dilma Rousseff a Marina Silva, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Déborah Danowski pensam o planeta e o Brasil a partir da degradação da vida causada pela mudança climática

Eliane Brum 29 SEP 2014

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191.html

Esse mundo já era – Como viver no Antropoceno

Bernardo Esteves Outubro 2014

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-97/despedida/esse-mundo-ja-era

  1. É proibido pensar: quem está nos impedindo?

Somos ainda muito cartesianos e eis que acreditamos na razão, no ego e na vontade e apostamos que são essas instâncias que estão dando “as cartas”. Será? Será que estamos avaliando direito o momento presente ao nos valermos de tais instâncias?

Cornelius Castoriadis, em um livro memorável, Instituição do Imaginário[5], discutia uma instância outra, chamada de imaginário, que nos envolvia e mesmo conduzia e que estava “para além” da nossa capacidade egóica. Cada época histórica tem um imaginário que nos contorna e nos permite pensar e agir[6].

O imaginário moderno, pós-moderno, nos permite pensar a partir de uma matrix e nela, nessa matrix, o que vale é crescer indefinidamente, o progresso é a flecha do tempo que nos conduz, o desenvolvimento econômico, social é para o homem: o rei da criação. Desenvolvimento também progressivo da ciência e da técnica. Fazer, fazer, e ainda fazer é a palavra de ordem do mundo moderno: mais eficiência, mais produtividade, mais produção, mais consumo. Mais, mais, mais! É proibido pensar!

O antropocentrismo é, nessa matrix, indiscutível. Outras espécies além da nossa não entram no nosso cálculo individualista. O planeta Terra não entra nos nossos cálculos. Nesse imaginário, o planeta é lido ainda sem as lentes de James Lovelock, e então a terra é um pedaço de pedra aconchegante que dá voltas em torno do sol e nela a vida evoluiu por que as condições eram adequadas: as bactérias se transformaram em organismos multicelulares, os peixes saíram do mar etc. Muito diferente disso é Gaia: uma espécie de superorganismo capaz de se autorregular.

Na década de 1970, Lovelock pôs uma simples pergunta: Por que a Terra é diferente de Marte e de Vênus, onde a atmosfera é tóxica para a vida? Em um arroubo de inspiração, ele compreendeu que nossa atmosfera não foi criada por eventos geológicos aleatórios, mas sim devido à efusão de tudo que já respirou, cresceu e apodreceu. Nosso ar “não é meramente um produto biológico”, James Lovelock escreveu. “É mais provável que seja uma construção biológica: uma extensão de um sistema vivo feito para manter um ambiente específico”. De acordo com a teoria de Gaia, a vida é participante ativa que ajuda a criar exatamente as condições que a sustentam. É uma bela ideia: a vida que sustenta a vida.

A teoria sobre Gaia foi lançada em 1979 e, se por um lado encantou, por outro, dizia-se, não estava provada cientificamente e Lovelock sofreu, a partir daí, muito descrédito e isolamento, até que se tornou impossível negar suas teses e ele voltou ao cenário científico como o Copérnico do século XX: fomentador de uma revolução científica e cultural. Escreveu uma série de livros tendo sempre Gaia como personagem principal. O último deles é Gaia: Alerta Final[7]. E nesse livro Lovelock está muito pessimista. Nosso futuro? “É como o dos passageiros em um barquinho de passeio navegando tranquilamente sobre as cataratas do Niágara, sem saber que em breve os motores sofrerão pane”.

O tempo para reverter a situação já passou, segundo Lovelock, e, agora, resta aos humanos se prepararem para sobreviver às novas condições do planeta que, por suposto, serão bem difíceis. Como diz em Gaia: Alerta Final: “…o homem abusou do planeta e, irremediavelmente, terá que arcar com as consequências. Não há como sustentar uma população de 7 bilhões de habitantes. Uma onda de migrações em massa impulsionada pela mudança climática será seguida por uma redução considerável da população do planeta”. Segundo ele, o aquecimento global é inevitável e 6 bilhões morrerão neste século.

O link abaixo, do cientista Antônio Donato Nobre, permite-nos mais uma ducha fria — e muito contemporânea/atual — e um presta-atenção definitivo. Convido, pois, os meus leitores a corajosamente escutá-lo: http://www.ted.com/talks/antonio_donato_nobre_the_magic_of_the_amazon_a_river_that_flows_invisibly_all_around_us?utm_source=newsletter_daily&utm_campaign=daily&utm_medium=email&utm_content=button__2014-09-19

É tendo em conta a falência desse imaginário e os sinais evidentes da catástrofe que já aconteceu, mas que doravante faz-se eminente; é em função disso, entre muitas outras coisas que, parece-me, o PT esgotou suas possibilidades. Cumpriu um papel importante ao lutar contra a ditadura militar e nos alavancar para fora de uma elite devoradora, defendendo os tais dos ‘trololós em defesa dos oprimidos’ e, todavia, esgotou-se como possibilidade ao levar até o fim, até o limite, uma proposta econômica desenvolvimentista. Nem a Dilma Rousseff, nem o Lula, nem o PT têm quaisquer chances daqui para a frente — como também não tem o PSDB, o PMDB, o PSOL, etc.

Estranhamente, porém, isso não suscita meu ódio, mas minha gratidão pelo que eles fizeram pelo país, reconhecendo, todavia, como já disse, que o tempo deles acabou. E a corrupção, Amnéris, você está louca? Não, não estou e como disse, o professor Renato Janine Ribeiro[8], na Folha de São Paulo, agora nosso Ministro da Educação e também filósofo da USP, a corrupção está nas entranhas do processo político brasileiro, não começou com o PT e tomara que termine junto com ele. Localizar o PT como ‘culpado’ da corrupção, porém, é uma piada.

Devo dizer também que embora hoje me alinhe com outra percepção de mundo, outra pauta existencial e política não vou, por suposto, abrir mão do conceito de classes sociais, das diferenças raciais, do conflito democrático, da pluralidade, da multiplicidade, e torço para que os infinitos ismos se multipliquem! Não vou abrir mão dos ‘trololós em defesa do oprimido’ — aliás, penso muito neles, nos trololós, que, parece-me, deveriam ser lidos a partir de outra perspectiva.

Ora, é esse imaginário que nos impede de pensar e em três direções:

  • Impede-nos de pensar porque formatados namatrix moderna só sabemos, como se fôssemos formiguinhaz,[9] pensar na direção do que está dado. Como fomiguinhaz não conseguimos sair da fôrma. Esse aprisionamento no imaginário moderno é e será o responsável pela negação e impossibilidade de pensamento[10] em torno do que nos trouxe até aqui: a ciência e a técnica, carros-chefes da nossa proposta civilizatória e também máquinas mortíferas não pensadas;
  • Não há representação possível e, frise-se, não há esforços por parte da mídia, por parte da universidade, por parte da política para representar e nomear a catástrofe climática, hídrica, planetária que nos espreita e então não conseguimos transformar em uma agenda existencial — e não somente política — as questões em pauta. Não conseguimos, pois, pensá-la, porque não só não a representamos, mas negamos o que está acontecendo. Não é então surpreendente que nem manifestantes, nem partidos, nem a mídia, nem os comentadores tenham dito algo significativo em torno dacatástrofe que já aconteceu;
  • Acatástrofe, embora não consciente, nos ameaça, espreita-nos sem que possamos lidar com ela e então, porque não podemos pensar, desencadeamos uma guerra de todos contra todos vertendo um ódio, agora sim um ódio velho, ancorado em identificações projetivas que nos ameaça como uma cegueira profetizada pelo português José Saramago no romance Ensaio sobre a cegueira, publicado em 1995 e levada ao cinema com brilhantismo por Fernando Meirelles em 2008. Talvez esse momento esteja mais próximo do que nunca! Na verdade, nós já o estamos vivendo, pois estão jogando areia nos nossos olhos. Tomara que depois voltemos a enxergar! Tal esperança, porém é só uma aposta!

 

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NOTAS

[1] Gustavo Ioschpe. ‘Há multidões em mim’. In: Revista Veja. Edição 2418 — ano 48 — número 12 – 25/3/2015.

[2] Sujeito Multidão. O Estado de São Paulo. 21/03/2015.

[3] A Nova República acabou. UOL. S.P., 15/3/2015.

[4] Há um mundo por vir? — Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro (Florianópolis) Cultura e Barbárie: Instituto Sócio Ambiental, 2014.

[5] S.P. Brasiliense, 1983.

[6] Outro autor que aprecio muito, Jacob Burckhart crítico da filosofia de Hegel e filiado a Shopenhauer, pai espiritual de Jung e de Nietzsche, em um livro também memorável Reflexões sobre a História, discutia cada época histórica como sendo a realização do ‘espírito de um povo’. Compreenda-se o ‘espírito de um povo’ na compreensão burckhartiana, não era transcendente, mas antes correspondia às realizações de um povo, quer materiais, artísticas, espirituais, científicas, etc. Ora, para ele, o ‘espírito de um povo’ era simbolizado por uma roupagem e essa roupagem ia se gastando até que, empalidecida, já nada oferecia de vida viva e então essa época deixava de ser, morria, caia no nada, até que outra época, outra roupagem do espírito se instituía abrindo uma nova época histórica. Acredito que estamos em uma dessas fases do ¨espírito de um povo¨ em que a roupagem está empalidecida e gasta e, todavia, essa fase é negada por todos os que ainda usufruem da roupa gasta: as grandes empresas, a política global, as universidades e a mídia.

[7] Ed. Intrínseca, 2010. Ver também artigo no jornal Folha de São Paulo, 16/1/2010 e Rolling Stones. Edição 44, novembro de 2007.

[8] “Tem razão quem se revolta. Folha de São Paulo, 25/3/2015. Cito um trecho: ‘Um dos modos dessa reação é carimbar um culpado bem afastado de nós. O PT cumpre hoje esse papel de demônio, que já foi de Getúlio Vargas. Assim se afasta de nós esse cale-se. Somos poupados. As manifestações do dia 15 de março, legítimas na medida em que ‘tem razão quem se revolta’ (mas alguma razão, não toda), caíram no engodo de construir um Outro demoníaco, aquele que acabou com o que era doce. O passado fica como uma idade, senão de ouro, pelo menos de prata”

[9] Estou me referindo ao filme estadunidense Formiguinhaz, lançado em 1998, dirigido por Eric Darnell e Tim Johson. O herói Z (Wood Allen) consegue fazer uma verdadeira revolução no formigueiro, junto com sua amada a princesa Bala. Tomara que imitemos o exemplo de Z.

[10] Como diz Heidegger ‘a ciência não pensa’.

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