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MELANCOLIA: SINTOMA CONTEMPORÂNEO?

Farei três movimentos em relação a esse tema: 1) passear pelo filme de Lars von Triers chamado Melancolia e comentá-lo; 2) perguntar como hoje a psicanálise e a psiquiatria leem o tema da melancolia, sua presença ou não na contemporaneidade; e 3) finalmente, examinar como C. G. Jung lê o tema da melancolia na contemporaneidade. 

Várias são as figuras da melancolia: essa é a primeira questão que precisamos manter presente. Essas figuras da melancolia mudam com o tempo, e cada escola — a psicanálise, a psiquiatria, a psicologia analítica — fala de figuras diferentes.

1) Será que o filme Melancolia trata de um sintoma contemporâneo, como Lars von Triers sugere?

Talvez, von Triers esteja descrevendo a si mesmo, esteja falando de sua própria depressão-melancolia. Na Revista Veja Páginas Amarelas/7/9/2011: Anticristo e Melancolia são, de acordo com von Triers, frutos das experiências que o cineasta vem enfrentando na vida: ansiedade e depressão. Afirma o cineasta: “Vindos de dentro de mim ou sendo eu a matéria-prima deles, eles foram fáceis até demais de fazer; não tive de construir nada para eles. Quase tenho vergonha do prazer que senti ao fazer Melancolia — esse é o fardo de ser protestante; quando algo é fácil não tem valor. Mas é fato que esse filme veio de um lugar muito puro do meu coração. Nunca conheci Ingmar Bergman pessoalmente, mas um dia, por qualquer razão, ele fez um comentário a meu respeito em uma entrevista — disse que, quando eu começasse a usar a mim mesmo em meus filmes, então talvez ele passasse a me considerar digno de alguma atenção como cineasta”.

Imagino que todos conheçam a sinopse do filme: a Parte I chama-se Justine e trata do casamento de Justine e Michael. O não envolvimento de Justine com a sua festa de casamento é radical. Ela sorri o tempo todo e parece estar feliz, mas não está envolvida. Justine é publicitária — redatora e seu chefe, que está atrás de um slogan durante o filme todo — a promove na própria festa a “diretora de arte”.

Pai e mãe de Justine (18 10’ a 20 11’) fazem um pequeno discurso: o pai, em uma fala completamente esvaziada, diz o quanto ela está linda e feliz e provoca a mãe chamando-a de dominadora. A mãe, Gaby, compra imediatamente a provocação e diz que, se Justine tem ambição, deve isso a ela e não ao pai ou à família do pai. Acrescenta que odeia casamentos e principalmente casamentos de parentes próximos.  Claire a outra filha que parece primar pela sensatez, sussurra “por que veio?”

O tédio de Justine e o seu não envolvimento com a festa transparecem quando (21 47’ a 24 15’) ela sai para o jardim para ver a noite, fazer xixi e olhar o planeta melancolia que, no final, colidirá com o planeta terra. O não envolvimento de Justine fica ainda evidente quando ela vai dormir durante a festa! (27 34’ a 29 27’)

Devemos ser felizes, é nossa obrigação ser feliz. John, cunhado de Justine, depois de lembrá-la que a festa custou os “olhos da cara”, lembra-a também que isto não tem nenhuma importância desde que ela seja feliz. Faz então um acordo com Justine: ela deve ser feliz (37 30’ a 39 04’) E ela se esforça: “ela sorri, sorri, sorri”.

A mãe de Justine é uma mãe deprimida ou uma mãe melancólico-deprimida? É importante não confundir depressão e melancolia. Muito menos imaginar que a diferença entre uma e outra seja de grau, sendo a melancolia uma forma mais grave de depressão. Apesar das diversas coincidências sintomáticas, a depressão é muito diferente da melancolia — ainda que uma das facetas da melancolia seja a depressão e a outra a mania.

A desesperança no melancólico tem a ver com o fato de que o “outro significativo”, seu primeiro “outro significativo”, sua mãe, não lhe conferiu um lugar em seu desejo. O melancólico ficou preso em um tempo morto, um tempo em que o outro deveria ter comparecido, mas não compareceu. Isso fica muito claro quando John vai chamar Gaby, a mãe de Justine e Claire, que também havia se ausentado da festa. John bate e chama Gaby dizendo que estão prontos para cortar o bolo e a fala de Gaby é absolutamente significativa (30 53’ a 31 28’):  não estava lá quando Justine fez o primeiro cocô, não estava lá quando teve a primeira relação sexual; não lhe importa estar lá quando, nesse ridículo ritual, vão cortar o bolo! Não por acaso Justine também não “está lá”: no casamento, na vida.  Se o melancólico representa a si mesmo como alguém sem futuro é por que na origem da constituição do sujeito o “outro significativo” — a mãe — não esperava nada dele. Isso fica claro na cena que eu chamo “acolhimento zero”: Justine diz para a mãe, ainda durante a festa, que sente medo, que não consegue caminhar com facilidade, que está muito assustada. Gaby lhe dá respostas genéricas sem se interessar minimamente por seus sentimentos (43 26’ a 44 50’).

Parte II, chama-se Claire. Que diferença podemos estabelecer entre melancolia e depressão? Justine é deprimida ou melancólica? Melancólica e resignada, pois — como veremos — aguarda a catástrofe, a colisão do planeta Melancolia com o planeta Terra, com amarga resignação. Sua resignação é fruto da desesperança, da mais profunda desesperança. E Claire, sua irmã, que quer aguardar a catástrofe com estilo, tomando vinho e escutando música? Claire é desesperada; desesperada e melancólica. Seu desespero ainda revela esperança, esperança por exemplo de ver o filho crescer no planeta Terra!

Tudo isto é contracenado com a mania do marido de Claire, John: ele é o melhor representante da mania e do bem-estar obrigatório: a ciência e a tecnologia lhe garantem segurança e, claro, muita, mas muita riqueza também. Porta-voz da ciência e dos “cientistas verdadeiros”, ele promete para a desesperada Claire que Melancolia, o planeta, não colidirá com a Terra e que eles terão uma visão espetacular do planeta. John, porém, o covarde John, estoca alimentos pois teme, ele também, a passagem de Melancolia. Continua, porém fingindo que “tudo está bem”. Antes mesmo da colisão de Melancolia, John se suicida.  Justine enfrenta uma dolorosa depressão melancólica, mas não teme Melancolia (14 03’ a 18 22’). Um diálogo entre Justine e Claire é particularmente claro. Justine afirma que não lhe importa que tudo vá pelos ares por que “A terra é má. A vida na terra é má. E que estamos sós na terra. Somos só nós e em pouco tempo deixaremos de existir, e a vida então não mais existirá” (22 11’ a 27 29’). A desesperança é a sua marca. E então a belíssima, em termos plásticos, colisão de Melancolia com a Terra — e/ou o “fim do mundo” do melancólico (54 47’ a 58 08’). Claire pergunta “como você sabe disso tudo? — Quem te autoriza? E a resposta de Justine não segue nenhuma lógica; ela responde que sabe porque sabe das coisas.

Lars Von Triers se irmana com Justine na já citada entrevista: “Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus, eu o culpo por tê-la largado no meio do caminho, sem levá-la à sua conclusão lógica. Imagine uma criança que ganha um trem de brinquedo e o põe para funcionar; ele corre nos trilhos uma dezena de vezes, a criança se diverte e então perde o interesse. O que acontece com o trem depois que a criança o larga? Isso, para mim, é a vida: se Deus a criou — e eu não acredito Nele, mas vamos supor que exista. Ele logo a largou, correndo por aí, sem um pensamento para o fato de que criou seres que sabem que a cada passo deles na Terra causa o sofrimento, de uma planta, um animal, ou um outro homem, e que tem de enfrentar a consciência de que sua existência é finita. Isso é nascer sob uma sentença de morte. Se eu fosse um bicho sem noção de que vou morrer e de que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécie alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira que ela é para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não — absolutamente não”.

Quero com isso dizer que os dois últimos filmes de Lars Von Triers, belíssimos, esteticamente extasiantes, permitem-nos conhecer melhor o sofrimento melancólico do diretor e também uma figura da melancolia que nasce — como veremos a seguir — no século XX e que em nada nos lembra a figura da melancolia pré-moderna, pré-freudiana.

As várias figuras da melancolia e a depressão.

Vou me basear neste item no livro da psicanalista Maria Rita Kehl, O tempo e o cão — a atualidade das depressões (S.P. Boitempo, 2009) e em uma tese de doutorado que eu orientei na Unicamp, chamada Diabo e a Fluoxetina– formas de gestão da diferença, 2012, de Mariana Cortês. Maria Rita no excelente livro citado e publicado recentemente defende a seguinte tese: se é possível hoje falar de um sintoma social este seria o da depressão e não da melancolia. Como se sabe, para a psicanálise, a melancolia tem como base a estrutura psicótica, enquanto a depressão que hoje aparece como sintoma social tem por base a estrutura neurótica [1]. Muito embora ambas as patologias apresentem sintomas comuns:  o que definitivamente se poderia nomear como sintoma social é hoje a depressão e não a melancolia, como já disse.  Também a psiquiatria lê a depressão como um sintoma social avassalador e preocupa-se em debelar essa epidemia através da farmacologia.   Maria Rita traz muitos dados estatísticos da psiquiatria e dados da Organização Mundial da Saúde sobre depressão no Brasil e no mundo: no início dos anos 2000, a depressão alcançava 6% da população mundial e previa-se que até 2020 teria se tornado a segunda causa de morbidade no mundo industrializado, precedida apenas pelas doenças cardíacas. No Brasil cerca de 17 milhões de pessoas foram diagnosticadas como depressivas nos primeiros anos do século XXI. De acordo com o jornal Valor Econômico [uma indústria do bem-estar] a respeito dos vinte anos do Prozac, o mercado de antidepressivos vem crescendo no país a uma taxa de cerca de 22% ao ano, o que representa uma movimentação anual de 320 milhões de dólares. O aumento desse número é chocante frente a uma sociedade que se lê como antidepressiva, tanto no que se refere aos ideais de estilo de vida e ideais ligados ao prazer, à alegria, ao cultivo da saúde quanto à oferta de novos medicamentos para combater a depressão.

A psiquiatria, enquanto dispositivo hegemônico, pôs fim à figura do Jeca, o caipira deprimido que ainda habita o imaginário das pessoas com mais de 50 anos. Hoje o Jeca, não é mais triste; hoje o caipira está ele também deprimido e medicado — assim constatou Mariana Côrtes em sua excelente etnografia nas bordas de Uberlândia, Minas Gerais. Mariana Côrtes trabalhou uma entrevista do Dr. Gentil, médico psiquiatra paulistano, também presente na Revista Veja, nas páginas amarelas. Nessa entrevista o Dr. Valentim Gentil Filho, do Hospital das Clínicas de São Paulo, deu uma entrevista que ficou famosa ao defender que “pessoas normais” também devem ser medicadas para que se tornem ainda mais normais — eliminando assim um ou outro comportamento indesejável, um ou outro estado de humor desagradável, e assim possibilitar a conquista de um estado de ânimo estável e sem conflitos, uma saúde mental “melhor que bem”. Esse projeto (científico?) subtrai, porém, o sujeito — o desejo, o conflito, a dor e a falta — a fim de proporcionar ao cliente uma vida sem perturbações e então produzindo vidas vazias, sem criatividade e sem valor. As dores da vida deveriam, nessa estratégia, ser todas dispensadas e com elas a riqueza psíquica única a conferir algum sentido à finitude, ao desamparo e à solidão.

E a melancolia? Ela foi desalojada pela psicanálise e pela psiquiatria no mundo contemporâneo e trocada pela depressão como sintoma social. A melancolia começa a aparecer como um problema em Aristóteles, na Grécia antiga, a dois mil e quinhentos anos. Para Aristóteles, Problema XXX, o melancólico é “exceção”: assim, o descreve na relação com seus semelhantes[2].

Na Antiguidade o caráter excepcional do melancólico era atribuído ao excesso de bile negra, responsável pelo excesso dos ventos sobre os outros elementos que compõem o corpo. São os ventos que emprestam ao caráter melancólico sua inconstância (sua predisposição a “sair de si”), sua predisposição a abatimentos profundos e ao furor, mas também sua rapidez de pensamentos e sua criatividade.

Marcílio Ficino ao comentar o Problema XXX, escreve que, no pensamento aristotélico, “todos os homens que excederam em qualquer domínio eram melancólicos […] e não existiram gênios a não ser entre os homens tomados por algum furor”… melancólico é um indivíduo instável que oscila perigosamente entre o gênio e a loucura — dois estados da alma cuja diferença não é de qualidade, mas de grau. É importante observar também que no Problema XXX, a melancolia não é reduzida ao estatuto de doença, o que coloca para o melancólico uma questão ética que poderíamos traduzir, modernamente, como a de uma escolha de destino para o seu sofrimento. A interpretação médica da melancolia, desde Galeno, ensinou aos antigos que não são os deuses que se expressam pela voz dos inspirados e sim o desequilíbrio das misturas que compõem o corpo e que os leva a criar. Mas tal determinação humoral é insuficiente para explicar “como, da violência, ela [a inspiração] produz um sentido… como com o dom, fazer o ser”. [Aristóteles. O homem de gênio e a melancolia].

A partir de Aristóteles, a questão do desacordo entre o sujeito e o Bem, que situa o melancólico em um lugar de exceção tomou as mais diversas formas nas representações da melancolia no ocidente. E, todavia, tanto no renascimento quanto no romantismo melancolia e gênio criador caminham juntos. Ao longo da história e, em particular, no Renascimento e no Romantismo, o melancólico ocupou um lugar vital ao se recolher e ruminar. Dotado de uma sensibilidade exacerbada, que se confundia com o gênio, seu sintoma era ele mesmo revestido de promessa de solução para o mal-estar da cultura. As formas antigas de melancolia podem ser compreendidas como expressões do sintoma social e a cura uma promessa para o próprio mal-estar.

Assim, o termo melancolia percorreu a cultura ocidental desde Aristóteles carregado de signos de sensibilidade, originalidade, nobreza de espírito e outras qualidades que caracterizam o gênio criador. Até o romantismo — a melancolia era vista como uma forma de mal-estar que denunciava o desajuste entre alguns membros de uma determinada sociedade e as condições do laço social. É neste desacordo que reside a chave da nossa discussão.

Este desacordo entre o sujeito e o Bem pode ocorrer em qualquer sociedade, em qualquer cultura. Nas condições anteriores à modernidade — para Maria Rita Kehl — o Bem não seria necessariamente incompatível com a verdade do sujeito, uma vez que este se reconhecia, acima de tudo, como partícipe, da mesma tradição a partir do qual este Bem se estabelecera. É quando as tradições perdem a força de estabelecer os destinos das novas gerações, quando a verdade deixa de ser entendida como revelação divina e se multiplica em versões parciais e saberes especializados; é então que o indivíduo é obrigado a se afirmar como centro de suas referências e a se responsabilizar por estabelecer alguma concordância entre a verdade do ser e o Bem, entendido como convicção coletiva estabilizadora do laço social.[3]

Eis que no século XX a melancolia tem um novo momento decisivo, sofre uma mudança paradigmática com S. Freud — Luto e melancolia é de 1915. E é importante frisar desde já que a melancolia deixa de ter, no pensamento de Freud, o charme que a marcou até então, refiro-me àquele do gênio criador.

A teoria freudiana da melancolia promoveu duas rupturas simultâneas: no plano clínico, o texto de 1915 trouxe a melancolia do plano da medicina psiquiátrica para o da clínica psicanalítica; no outro plano, o da história das ideias, o texto de Freud acabou por afastar definitivamente a melancolia da longa tradição pré-moderna das representações, predominantemente sublimes, atribuídas aos homens de caráter melancólico desde a Antiguidade grega. Luto e Melancolia é um monumento da cultura e abriu caminho para o fundamental da pesquisa psicanalítica e, todavia, é indiscutível que o melancólico, o antigo melancólico cheio de charme, sensibilidade, originalidade, nobreza de espírito e encarnando a crítica social ao longo dos séculos encontrou também seu fim! Nada resta desse antigo opositor a todos os sistemas; a psicanálise o baniu definitivamente!

Freud centrou sua investigação da melancolia nas ligações íntimas e precoces da vida familiar. Melancolia foi o significante utilizado por Freud para designar os ciclos depressivos desse tormento – o outro lado da moeda é, como se sabe, o da mania. Ao utilizar esse termo, Freud distancia-se do diagnóstico de Kraepelin: da psicose maníaco-depressiva. A privatização da vida e a autonomização da família foram efeitos da proposta freudiana e, com isso, talvez de maneira inadvertida, a melancolia veio a perder seu antigo potencial de sintoma do mal-estar da civilização — como vimos, para a psicanálise, a melancolia não é o sintoma contemporâneo que traduz a atual forma de mal-estar. Quem ocupa esse lugar é o “distúrbio depressivo”.

A herança da melancolia na tradição e a noção de individuação de Carl Gustav Jung

 O pai espiritual de Jung é J. Burkhardt. Este historiador da arte foi também o único professor que Nietzsche teve — nas palavras mesmo de Nietzsche. Nas pegadas de ambos os autores, Jung muito à sua maneira no mesmo movimento que critica a civilização ocidental enuncia também sua “redenção”: o homem individuado. Nietzsche ao criticar a civilização ocidental enuncia também sua superação: o além-do-homem. Ora esse movimento crítico não se inscreve na teoria de Freud e para isso basta ler O Mal-estar da civilização. Para Freud a civilização ocidental é inquestionável; definitivamente, não é um problema! Muito embora possamos fazer, ao ler à contrapelo O mal-estar da civilização, uma crítica à civilização ocidental como fez Marcuse, esse não foi o intento de Freud. Ou seja, entre a civilização e o indivíduo Freud opta pela civilização: o indivíduo deve ajustar-se a ela e há um preço a pagar para dela participar, um valor em termos de sofrimento que só faz aumentar, e seu subproduto inevitável será a guerra. Enfatizo então que não há lugar em Freud para a discussão em torno do desajuste entre parte dos membros da sociedade e o laço social.

Para Jung, o homem ocidental moderno está reduzido a um “fragmento de si mesmo”: a razão, a consciência e a extroversão. Assim fragmentado, cindido de si mesmo, cindido do sentimento, da intuição, da capacidade de voltar-se para si mesmo, do inconsciente, o homem ocidental atravessa um imenso perigo: sua existência deixou de ter sentido e, então, só lhe resta o sentido oferecido pelo coletivo; esta adesão ao coletivo — sem nenhuma reserva de si — torna o homem moderno presa fácil do coletivo, como os movimentos totalitários mostraram ao longo do século XX e não param de se reatualizar. Frente a este imenso perigo, Jung convida todos nós, modernos, a sair imediatamente do entorpecimento niilista em que nos encontramos e individuar-se. E assim “despojar o Si-Mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”[4] “Individuação significa tornar-se um ser único (…) significando que nos tornamos o nosso próprio si mesmo”[5].

Ou seja, a figura da melancolia pré-moderna, pré-freudiana encontrou um campo inesperado de acolhimento na teoria deste último romântico que insiste em sobreviver: C.G.Jung! O processo de individuação preserva as principais características dessa antiga figura da melancolia — muito embora Jung não faça essa associação. Senão vejamos: o desajuste entre o indivíduo e o Bem. Isso que marcou, ao longo dos séculos, a figura do melancólico é a peça chave da psicologia analítica de C.G. Jung. Mais do que isso: para Jung, o indivíduo só nasce como tal, como indivíduo, se conseguir diferenciar-se do coletivo, visto como Bem, tudo o que monta o imaginário da sociedade moderna e, principalmente, o Estado, a visão racionalista, cientificista, tecnicista da cultura. Afinal estamos às voltas com um romântico-nietzschiano!

É preciso, pois, que o indivíduo consiga diferenciar-se deste imenso útero coletivo, singularizando-se — é também preciso que se diferencie do que Jung chama de inconsciente coletivo, mas neste momento não entraremos nessa discussão, mantendo-nos mais próximos dos melancólicos pré-modernos e pré-freudiano. Jung também se filia a estes últimos quando afirma que a individuação “não é para todos”: para viver tal processo é preciso, lembremo-nos, viver o desajuste “com o coletivo” e, infelizmente, nem todos vivem, pois não?  Jung também coincide com os melancólicos de antanho quando pensa o processo de individuação como sintoma e solução/cura para o mal-estar da cultura. Sintoma, pois, é a civilização ocidental que reúne as condições para que o indivíduo venha a viver o processo; é em função da civilização que o homem vive um “fragmento de si mesmo” e, então, concentra poderosas energias no inconsciente que farão valer os seus direitos em algum momento produzindo uma reviravolta: a metanóia, a mudança de direção da energia psíquica para o inconsciente e então recolhimento para um lugar vital — o famoso vaso alquímico — e a “ruminação” se impõe até que, de novo, o indivíduo  retorne para o fluxo coletivo de energia psíquica, portando um novo valor, sentidos e significados novos, fruto da individuação. Sintoma e cura da civilização; eis como o homem individuado é pensado, exatamente como os melancólicos pré-freudianos!

A melancolia para os teóricos pré-freudianos não era doença, mas uma espécie de escolha de destino para o sofrimento. O mesmo pensa Jung para o que denomina processo de individuação. Na concepção junguiana — também na nietzschiana — só o homem pode “curar” o processo civilizatório. Um homem que ousou responder à pergunta de Nicodemus: “pode o homem voltar para a barriga da mãe e renascer?” Eis que de novo o melancólico — melhor dizendo, o individuado — renasce pelas mãos de Jung cheio de charme, portador de sensibilidade, criatividade, ousadia suprema de voltar para a barriga da mãe e renascer. Pelas mãos de Jung a tradição re-nasce ressignificada e, também, com ele, alguma esperança que a vida não se resuma a ajustar-se a uma engrenagem mortífera.

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REFERÊNCIAS

[1] A depressão contemporânea é mais próxima da neurose — enquanto a melancolia é psicótica. Se caracterizam pelo sentimento de vazio, lentidão mental e corporal, abatimento profundo. A questão que se coloca é: o que acontece, na origem de certas entradas na neurose, que abate o sujeito de uma forma tão avassaladora desde muito cedo?  O que decide, durante o atravessamento do complexo do Édipo, a saída pela depressão (crônica) para alguns sujeitos neuróticos?

Os sujeitos deprimidos abstêm-se da reivindicação fálica, colocando-se sob o abrigo da castração infantil; “escolhem” permanecer na condição de castrados. Embora pareçam “conformados” com a castração, a verdade é que não conhecem o valor dela como motor e causa de seu desejo. A castração para eles é uma ferida aberta que, além de envergonhá-lo, não para de doer. Nisso consiste a dor moral do depressivo, prova de que ele, embora conheça castração, não é capaz de simbolizá-la. Isso não significa que não existam paixões de rivalidades nos depressivos. Se eles recuam, é porque não admitem o risco da derrota nem a possibilidade de um segundo lugar. Ao se colocarem ante a exigência de “tudo ou nada”, acabam por se instalado lado do nada. O depressivo não enfrenta o pai. Sua estratégia é oferecer-se como objeto inofensivo, ou indefeso, à proteção da mãe. O gozo dessa posição protegida custa ao sujeito o preço da impotência, do abatimento e da inapetência para os desafios que a vida virá lhe propor.  Pobreza na produção de fantasias e pobreza de recursos defensivos próprios da neurose. Posição do depressivo: é consequência, além do recuo ante o enfrentamento com o pai, da tentativa de recuar também ante um saber que se impõe a todo sujeito, seja pela via do sonho, do lapso ou do sintoma. É ao tentar ignorá-lo que o depressivo se aniquila subjetivamente. Sofrimento dos depressivos é ainda agravado com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação. Os depressivos de hoje, vivem em outra temporalidade — se tivermos presente a velocidade do tempo da atual contemporaneidade —, um “tempo estagnado”; depressivo é lento e incapaz de colocar-se em sintonia com a urgência da contemporaneidade.

Para Maria Rita Kehl, as depressões na contemporaneidade, ocupam o lugar de sinalizador do “mal-estar na civilização” que desde a Idade Média até o início da modernidade foi ocupado pela melancolia. Na contramão do seu tempo, os depressivos fazem água e ameaçam afundar a nau dos bem adaptados ao século da velocidade, da euforia, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado.

[2] KEHL. M.R. O tempo e o cão, op. cit.  p.63.

[3] Ou seja, na modernidade esse desacordo se generaliza. Dito de outra forma, na modernidade, a verdade do sujeito advém do inconsciente. O sujeito da psicanálise se constitui como efeito da operação de recalque necessária para separá-lo do gozo do Outro. Dessa operação resulta a ignorância do indivíduo (este compreendido como uma função do eu) a respeito da verdade que sustenta seu desejo — para Freud, a condição universal de fundação do sujeito é o recalque primário que inaugura o inconsciente.

[4] JUNG. C.G. O Eu e o Inconsciente. Vozes. Petrópolis, 1987, pr. 269.

[5] JUNG. C.G. O Eu e o Inconsciente. op. cit. pr. 266-7

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