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BOLLANDO A CLÍNICA

  1. Introdução

Algumas páginas memoráveis do livro de Christopher Bollas, Forças do Destino[1], exigem nossa atenção já que ele redefine o setting analítico de maneira radical. Lembremo-nos de que Bollas é nosso contemporâneo e um analista winnicottiano e bioniano singular. Em uma entrevista que saiu na Revista Percurso[2], Bollas narra sua trajetória intelectual: antes de se tornar psicanalista, passou pela literatura e pela história e, exatamente por isso, tem um “olhar estrangeiro” sobre a psicanálise e então a lê e exercita-se na clínica psicanalítica de uma maneira peculiar.

Cada uma das ideias que exponho abaixo transpiram a singularidade, o idioma pessoal de Bollas. Seguirei passo a passo a sua reflexão sobre o setting analítico: da motivação que leva muitos analistas a fazerem novas proposições de setting em função do que chamaríamos de novas patologias até chegar, na medida do possível, às premissas teóricas singulares de Bollas, que, de fato, exigem essas transformações.

Bollas afirma que hoje nos consultórios de psicanálise raramente vemos um paciente neurótico capaz de associar livremente, comprometido com o exercício da análise de tal modo que isso lhe permita superar resistências e elaborar o conflito psíquico inconsciente. Os consultórios de psicanálise são hoje povoados pelas novas patologias — esquizoides, fronteiriços, normopatas, narcísicos: esses pacientes não podem falar ou, desconfiados, não ousam fazê-lo. É para esses pacientes que se impõe as mudanças no setting e, então, as novas regras para a prática da psicanálise. É, tendo-os em vista, que o analista-intérprete deve se tornar um sujeito no campo da análise e, com isso, pôr-se à disposição do paciente e estabelecer a dialética da diferença (BOLLAS, 1992, p.85). Essa transformação crucial é o ponto de partida de Bollas, inspirado em D. W. Winnicott e R. W. Bion. A partir dessa discussão, trarei à tona a contribuição teórica singular de Bollas em relação ao idioma pessoal e ao objeto transformacional. Penso que essas duas chaves teóricas nos permitem compreender melhor o porquê da exigência de ressignificação do setting.

Os interlocutores de Bollas não constituem o ponto de partida de sua discussão e estão praticamente implícitos: ele os nomeia, mas sem fazer dessa nomeação uma polêmica. Todavia, tenho necessidade de trazer essa discussão à tona a fim de diferenciar e discriminar diferentes práticas.

  1. II. Dialética da diferença

A proposta é: criar uma dialética da diferença entre analista e analisando. Essa noção caminha junto com a noção do não saber, extremamente valorizada pelo autor. Na dialética da diferença, o analista torna-se sujeito no campo analítico — uma vez que estabelece uma relação com sua própria subjetividade. Isso significa que o analista usa o seu idioma subjetivo em benefício da análise e, com isso, o autor reconhece que o idioma pessoal sempre medeia a relação com o inconsciente e suas leis (BOLLAS, 1992, p.88). Para Bollas: Winnicott e Bion, principalmente Bion foi o líder mais corajoso da evolução do analista como sujeito (BOLLAS, 1992, p.67). Muitos outros (Marion Milner, Harold Searles e o próprio Bollas) deixam de ser analistas-intérpretes e se tornam “sujeito no campo total da análise (BOLLAS, 1992, p.68) ”. E, por isso Bollas pode dizer: “Jamais dois analistas diriam a mesma coisa para o mesmo paciente” (BOLLAS, 1992, p.88).

E como é valioso para os leitores quando os psicanalistas oferecem a sua estrutura mental como fonte inestimável de informação. É exatamente isso que Bollas faz. A passagem de analista-intérprete para sujeito no campo da psicanálise depende da integridade da relação do analista com a sua própria subjetividade e da continuidade da autoanálise. A proposta é aproximar, ou melhor dizendo, associar “a narrativa que o analista faz de sua subjetividade à pessoa do analista” (BOLLAS, 1992, p.69). Tenhamos presente que o analisando percebe a maneira peculiar com que sua fala, sonhos e fantasias são organizadas pelo analista. Mais do que isso, o analisando percebe corretamente muitos aspectos da personalidade de seu analista. Levando isso em conta, a proposta de Bollas de transformar o analista em sujeito no campo analítico é simplesmente mais honesta e mais proveitosa para ambos os parceiros. Vale dizer, o setting analítico contará com dois sujeitos, duas subjetividades, a do analista e a do analisando. Como se cria entre ambos a dialética da diferença? Descreverei abaixo os passos para que isso se dê:

– O analista discorda de si mesmo quando sente que as associações que o levaram a uma interpretação estão erradas ou quando, na sessão seguinte, percebe que o trabalho suplanta uma observação anterior. Nesse caso, o analista faz uma autocrítica e faz questão de dizer para o paciente: “Estou errado”. Cito Bollas: “Quando discordo de mim mesmo, destruo uma partícula previamente estabelecida de conhecimento. Crio em seguida o seu oposto, um espaço que, agora, contém o não-saber e que reconhece a presença de um conhecido não pensado, que pode descobrir o seu caminho para o saber” (BOLLAS, 1992, p.82).

– O analisando discorda do analista: quando Bollas percebe que o analisando discorda de sua interpretação, não hesita em dizer: “Você discorda”, e empenha-se para introduzir o fator da diferença (BOLLAS, 1992, p.82). Assim, lentamente, vai se estabelecendo a dialética da diferença. O analisando tem dificuldades de discordar do analista e para estabelecer a dialética da diferença é preciso que o analista o ajude nessa direção! Cito Bollas: “Quero ser livre para discordar do meu analisando. Quero que ele seja livre para discordar de mim. E segundo minha experiência, o analista pode estabelecer essa faculdade de discordar logo no início da análise mesmo com pacientes que aparentemente são tão narcísicos e fronteiriços que se pensaria não suportarem uma interpretação que achem irritante ou errada” (BOLLAS, 1992, p.82). Aliás, Bollas convida o analisando a descartar as associações/reflexões do analista que ele, paciente, pense estarem no rumo errado; sugere que o paciente selecione as reflexões que julgue mais pertinentes e até que escolha significados a partir das reflexões do analista (BOLLAS, 1992, p.85). Vale dizer, cada sessão é, de fato, resultado de uma parceria.

– O analista discorda do paciente: para que isso não seja traumático e seja ao mesmo tempo essencial na análise, o analista deve expressar essa possibilidade e em um momento irrelevante e o mais cedo possível na análise. Cito Bollas: “Acho que tenho uma forma de ver o que você disse que é diferente da sua compreensão do assunto. Você disse não se importar com os acontecimentos que relatou, mas eu discordo: é claro que eles importam” (BOLLAS, 1992, p.83). Bollas dizia a um paciente esquizofrênico que frequentemente se enraivecia com ele: “Bem nós discordamos, não é? Você pensa X e pode estar certo. Acontece que eu penso Y”. Com isso, abre-se a possibilidade de confrontar o outro, o paciente. Mais interessante ainda, se o paciente idealiza o analista e este interpreta afirmando sua existência subjetiva, o analista se oferece para ser pensado pelo analisando como um objeto! Citando novamente Bollas: “Quando me corrijo, quando o paciente me corrige, quando desafio o paciente, quando ele me desafia, descubro durante as sessões o que é para mim uma mutualidade analítica mais digna de confiança” (BOLLAS, 1992, p.92). E vice-versa, o paciente também cria confiança na parceria.

– Pacientes não raro precisam saber como o analista pensa antes de se comprometerem com a descoberta de seu self, e Bollas dá as informações: como veio a sentir o que sente, como pensa o que pensa. Isso é necessário e pode preencher uma necessidade básica de alguns pacientes: a de serem vistos e refletidos por um bom e saudável container (BOLLAS, 1992, p.88).

Segundo Bollas, e sempre compondo o conceito de dialética da diferença, cabe ao analista revelar mais e mais do procedimento analítico para o analisando. Quais são os processos psíquicos no analista que levam a uma determinada interpretação? Cito Bollas: “Quando um paciente tem a necessidade de saber a razão pela qual cheguei a uma observação, direi como concebi minha interpretação. […] Algumas vezes o paciente não me pergunta por que cheguei a uma interpretação, mas direi que desejo indicar como cheguei a ela e traçarei o caminho seguido. Esse é um dos aspectos importantes, tanto no autorizar quanto no limitar a função do subjetivo” (BOLLAS, 1992, p.82). Bollas entreabre para o paciente o processo psíquico dele, analista, revela o seu pensar.

Para Bollas, e esta parece-me ser uma questão central, estabelecer uma dialética da diferença é crucial para o uso regressivo que o paciente faz do analista na transferência. Friso isso porque poder-se-ia pensar que a dialética da diferença — vale dizer, a relação entre duas subjetividades, em certo sentido, em pé de igualdade — seria impeditiva à regressão do paciente, que, como se sabe, é necessária e constitutiva em qualquer boa análise. Pois não é! Valendo-se da dialética da diferença, uma intensa regressão transferencial — quando um paciente necessita ficar muito doente na presença do analista — pode ser amparada ao mesmo tempo que o analista mantém a sua função interpretativa.

Então, a dialética da diferença — a discordância do analista consigo mesmo por meio da autoanálise e da contratransferência, a discordância do analisando com o analista incentivada pelo próprio analista, a discordância do analista com o analisando — cria dois sujeitos, dois sujeitos no campo analítico, ainda que um deles seja o analista e o outro, o analisando — e que por vezes transformem-se um para o outro em objetos de pensamento. Os lugares estão preservados na dialética da diferença muito embora não sejam, como na psicanálise ortodoxa, assimétricos. É nesse “entre — das discordâncias — que se abre a figura do não saber, mais precisamente, do não saber inscrito no saber e do saber inscrito no não saber. Ora, isso só é possível no cultivo da dialética da diferença. Porque a dialética da diferença é sinônimo — e isso é uma percepção minha — do “mundo do entre” e é no “mundo do entre” que o não saber habita.

III. Sabendo e não sabendo: peça central do jogo analítico

Há uma tensão inevitável, e eu diria permanente, entre o saber e o não saber, e por isso o não saber é conquista e realização emocional; claro, uma conquista difícil, que, para Bollas, é a peça central do jogo analítico a fim de se alcançar o espaço potencial e com ele uma tela analítica interior que registra o idioma pessoal do analisando. Esse idioma pessoal que, para além do pulsional, refere-se ao self verdadeiro, aos estados do self e às experiências do self, só pode ser registrado por meio do não saber do analista. Um tipo particular de não saber é fundamental para os registros progressivos do self e também — muita atenção! — para se criar intimidade com o outro. A intimidade analítica exige o não saber para ser criada e proporciona para ambos os parceiros um tipo de prazer, o prazer do cultivo do espaço potencial na mente de cada um e a abertura do espaço potencial da/na sessão analítica: é nele que ganha força o paradoxo do saber e do não saber e é nesse espaço que o paradoxo habita; é nesse espaço esvaziado que novas possibilidades de sentido podem emergir para ambos os parceiros.

Bollas não hesita em nos contar a “experiência extraordinária de não saber o que era a análise, apesar de ser um analista” (BOLLAS, 1992, p.73). Para ser um psicanalista é preciso desenvolver esse não saber; até o fim não sabemos o que é uma análise, nem quem é um analista. Significa isso ser alguém que desconhece o seu próprio ser? Até um certo ponto sim, e Bion (1970) certamente disse o mesmo ao se referir àquela estrutura mental despojada da memória e do desejo.

Em atenção flutuante dez horas por dia e em milhares de horas durante nossa vida analítica, mantendo-se na medida do possível sem memória, sem desejo e sem compreensão racional é razoável pensarmos que temos um sentido um tanto estranho do nosso ser como analista. O mesmo poderia ser dito das interpretações do analista: de onde elas vêm? Responde Bollas: “nunca soube” (BOLLAS, 1992, p.74). Mas já vimos que o analista Bollas, embora sem saber a fonte das interpretações, pode, até certo ponto, descrever seu percurso e apresentá-las para o analisando. Aliás, ele insiste em que se faça isso.

Muitos outros fatores são fundamentais para que o analista abra mão do seu saber e paulatinamente se desconstrua a fim de encontrar o não saber. Destaco dois:

1) o idioma pessoal, o verdadeiro self e/ou a personalidade — tornados sinônimos por Bollas — são inatos e essa singularidade inata exige tornar-se realidade; se o paciente não consegue fazer isso, ele adoece. Só sabemos isso e isso é pouco. Sabemos muito pouco do verdadeiro self, do idioma pessoal.

O inatismo é comum a vários autores da psicanálise: Melanie Klein, C. G. Jung, W. R. Bion, D. W. Winnicott e, todavia, não é possível explicar essas pré-concepções — conceito de Bion — até o fim. Christopher Bollas vai ainda mais longe e propõe que o núcleo da personalidade — o idioma pessoal/o verdadeiro self — ele mesmo é inato! Temos que lidar com o não saber desde o início, desde os primórdios nessa prática impossível que é a psicanálise.

2) quando tudo vai bem, quando encontramos e internalizamos bons objetos transformacionais, a começar pela mãe, exteriorizamos e desenvolvemos progressivamente na cultura nosso idioma pessoal/verdadeiro self e encontramos e selecionamos incessantemente novos objetos culturais para enunciá-los e revelá-los a nós mesmos e, todavia, isso nos torna cada vez mais misteriosos, cada vez mais enigmáticos. Afinal, ser nosso próprio enigma é vital para nossa criatividade.

  1. Acorda amor e “chame o ladrão, chame o ladrão”…

Já temos agora condições de perguntar quem são os interlocutores implícitos de Bollas e ressalvo que o nosso autor é muito tímido e definitivamente não quer se colocar contra a tradição psicanalítica, e eu vou respeitá-lo; mas assim fazendo trarei à tona alguns de seus interlocutores implícitos. Seu principal interlocutor implícito é aquele analista que se assegura, que se tranquiliza, valendo-se de uma determinada aplicação prática da psicanálise, uma prática dogmatizada; esse analista sabe o que é análise, e sabe também o que é ser analista (BOLLAS, 1992, p.76-77). Esse tipo de analista está seguro de seu saber e longe de cultivar o não-saber — pelo menos na intensidade com que Bollas nos convida a fazê-lo. Bollas também não acredita que exista algo como “neutralidade interpretativa ou a postura cirúrgica […] que permite a alguém um estado de espírito de frieza emocional” (BOLLAS, 1992, p.74).

Gosto particularmente de uma frase já citada de Bollas: “Jamais dois analistas diriam a mesma coisa para o mesmo paciente” (BOLLAS, 1992, p.88). Compreendo essa frase como uma abertura para que o analista se torne mais e mais sujeito no campo analítico, comprometido doravante com a sua subjetividade, com as suas emoções — no lugar da neutralidade interpretativa e do amor que alguns analistas demonstram pelo método!

Bollas vai além ao afirmar: “Discordo tanto daqueles analistas que traduzem sistemática e rigorosamente o discurso do paciente em interpretações transferenciais (todos em nome da análise pura), quanto dos que acreditam que cada paciente precisa de uma adaptação constante, afetiva e interpretativa, da parte do analista para se sentir compreendido” (BOLLAS, 1992, p.92). A primeira prática é simplesmente enfadonha e desenvolve um círculo vicioso para as interpretações; Bollas, acertadamente nos diz que esse tipo de prática corrói a capacidade auto analítica do analisando e “distorce a inconsciência do inconsciente levando a um processo secundário sobre a mentalização da vida psíquica, já que, virtualmente, qualquer discurso pode ser imediatamente traduzido para uma resposta transferencial” (BOLLAS, 1992, p.92). A segunda prática simplesmente expulsa o elemento analítico da cena analítica, à medida que o analista busca posições de identificação com o analisando para fornecer respostas empaticamente ajustadas.

As condições para que o não saber se torne uma realização e também um prazer dependem, conforme vimos, do analista tornar-se sujeito no campo da análise e de condições que permitem criar a dialética da diferença. Mas também o não saber deriva da destruição/desconstrução paulatina do nosso saber sobre o paciente e, por isso, há quem não abra mão disso de jeito nenhum, de modo que as interpretações se repetem ainda que com variações, e a análise entra em descompasso com seu próprio nome, pois se torna rotineira e previsível. Esse não abrir mão por parte do analista de seu saber — de suas interpretações que até podem ter sido instigantes, mas que agora são um novo e indesejado fado para o analisando — garante que ele, analista, “mantenha a sua posição” — posição transferencial — e não ceda de jeito nenhum. Analistas assim, que parecem conhecer tão bem o seu analisando, afirma Bollas, de fato, o desconhecem[24].

Notei que Bollas não apresenta nas páginas de seus livros uma queixa, que aparece amiúde entre os psicanalistas da escola ortodoxa: a famosa transferência negativa, que leva o paciente a não “sair do lugar”, resistindo a análise e, não raro, agredindo bastante o analista. Na clínica de Bollas, isso parece não acontecer e o motivo a meu ver é simples: a transferência negativa e a resistência à análise, não raro levando o analisando a um enlouquecimento muito particular, são produzidas pela própria análise! Aparecem e se desenvolvem — causando muito sofrimento ao analisando — em função da assimetria nas relações entre analista/analisando, por que o analista, ao contrário de Bollas, impõe suas interpretações e elas podem estar muito equivocadas, mas o analista não se retrata, nem se desculpa, antes agarra-se ao método da psicanálise e à própria teoria psicanalítica defendendo-a com unhas e dentes contra o paciente! Disse que é um enlouquecimento particular porque ele se dá exatamente no lugar em que o paciente supôs que encontraria ajuda, no consultório de psicanálise. “Chame o ladrão, chame o ladrão”: eis o que um paciente submetido a esse enquadramento poderia, num ato supremo de bom humor, cantar para seu analista.

Na música de Chico Buarque, Acorda Amor, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. É esse o dilema do paciente, e não é raro que isso ocorra. Também não é raro que o paciente seja expulso do consultório como não passível de ser analisado. Em pleno século XXI, não podemos deixar de nos lembrar das palavras de K. Popper em relação a esse tipo de psicanálise: não é científica porque não há como “furar o cerco” da verdade encarnada pelo analista e pelo método; trata-se sempre de resistência do paciente. Vale dizer que, para Popper, a psicanálise seria uma pseudociência porque viola o princípio de falseabilidade, já que as teorias de Freud são irrefutáveis. Não penso isso evidentemente, mas insisto que algumas práticas psicanalíticas dão efetivamente essa impressão.

  1. V. Criação de um espaço potencial no setting

Desconhecer é a condição de conhecer e manter na tela interior do analista o idioma pessoal do analisando é fundamental. Todavia, por meio da desconstrução do seu saber e daquilo que Bollas chamou de dialética da diferença, e depois de muitas interpretações úteis que liberam memórias do analisando e o informam sobre o seu modo de funcionamento, cria-se entre ambos um espaço esvaziado, diria eu, um espaço potencial  paradoxal por definição — próprio da sessão e capaz de receber informações do inconsciente dos dois sistemas psíquicos, o que, de outra maneira, seria impossível. É esse vaso de acolhimento de novos sentidos e de pensamentos não pensados que, doravante, importa e isso é muito bioniano!

Aqui, Bollas segue Bion passo a passo: recordemos que para Bion são os pensamentos não pensados que criam a estrutura mental. Vale dizer, primeiro aparecem os pensamentos não pensados, que criam uma estrutura mental/ aparelho de pensar, o qual deverá pensar tais pensamentos não pensados. O pensamento vem antes do pensar! Para Bollas, da mesma maneira, são as seguidas associações corretas do analista — escolhidas e retificadas pelo analisando — durante o trabalho de análise, que contribuem para a estrutura mental, que está sendo desenvolvida nas sessões. Para o autor, associações são reflexões — e talvez devêssemos chamá-las, penso eu, de pensamentos inconscientes. A essa estrutura mental construída passo a passo por ambos os parceiros, Bollas chama de meio processador  e eu denominei anteriormente de espaço potencial da/na sessão de análise. Penso que para quem tem um feeling bioniano/winnicottiano a construção desse espaço potencial e/ou meio processador entre os parceiros é infinitamente mais convidativo que a prática ortodoxa da psicanálise.

Segundo Bollas, é assim que se estabelece uma “dialética básica, uma dialética que penso estar presente na essência da criatividade, no viver, uma dialética entre o saber (o organizar, o ver, o tornar coerente) e o não saber (o relaxar, o não perceber) ” (BOLLAS, 1992, p.80). Para Bollas, é isso o que permite “o sentimento de confiança no processo de refletir” (BOLLAS, 1992, p.85) e o que permite igualmente ao analisando usar esse processo de pensamento para seu benefício.

Por todas essas razões encontrei nas proposições de Bollas, na ressignificação do setting, uma fonte de ideias inteligentes e honestas na relação com o outro, o outro paciente. E, para concluir, uma frase um tanto bombástica de Bollas: “Não existe tal coisa como a prática da psicanálise” (BOLLAS, 1992, p.92). Essa frase nos convoca a levarmos em conta as múltiplas práticas e, claro, “criar a nossa própria prática” (BOLLAS, 1992, p.92).

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REFERÊNCIAS

[1] BOLLAS. Christopher. “O Muro e as Interpretações”. In: Forças do Destino – Psicanálise e idioma humano. R. J. Imago, 1992.

[2] Revista Percurso número 20/Primeiro semestre de 1998. Revista Semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento do Instituto Sedes Sapientiae.

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